CEO da Domyn defende posse de modelos de IA
Em entrevista, o CEO da Domyn defende a posse de modelos de IA por empresas reguladas em vez do aluguel de APIs de big techs.
Em entrevista ao The Information, Uljan Sharka afirma que depender de provedores de nuvem compromete a soberania de dados em bancos e na saúde.
Empresas que operam em setores altamente regulados precisam assumir a posse de modelos de IA e de seus próprios dados, em vez de terceirizar fluxos críticos para interfaces de programação (APIs) de grandes provedores de nuvem. A tese foi apresentada por Uljan Sharka, fundador e presidente-executivo da startup europeia Domyn, durante entrevista ao programa TITV, do veículo norte-americano The Information, veiculada em 9 de outubro de 2026.
No bloco da transmissão dedicado ao controle de sistemas corporativos, Sharka afirmou que o modelo padrão do mercado gera vulnerabilidade jurídica e estratégica. Ao enviar informações confidenciais por meio de chamadas de API de terceiros, companhias correm o risco de expor fluxos analíticos e perder a propriedade real sobre a tecnologia que move sua operação.
Controle direto e posse de modelos de IA
A proposta apresentada no TITV mira organizações como bancos, seguradoras, laboratórios farmacêuticos e órgãos de defesa. Nesses setores, regras de proteção de dados e segredo industrial impedem que registros internos alimentem bases comerciais de grandes provedores externos.
Para Sharka, o formato convencional de inteligência artificial como serviço (conhecido pela sigla MaaS, do inglês Model-as-a-Service) não atende a essas exigências. A Domyn propõe um caminho alternativo: entregar o código-fonte aos clientes e executar pré-treinos contínuos diretamente sobre dados corporativos, mantendo pesos e parâmetros sob governança privada estrita. Em vez de pagar pelo consumo pontual de um modelo alheio, a instituição opera um sistema desenhado exclusivamente para seu ambiente interno.
A aposta de US$ 1 bilhão e o supercomputador próprio
A Domyn começou sua trajetória em Milão, no ano de 2016, com o nome de iGenius. Em junho de 2025, a empresa adotou a marca atual para focar no mercado de soberania digital corporativa. O trabalho de Sharka com modelos regionais na Europa rendeu ao executivo uma vaga na lista TIME100 AI de 2026, organizada pela revista TIME.
Para sustentar a arquitetura privada que vende, a startup organizou uma captação de mais de US$ 1 bilhão. O projeto central dessa operação é a construção de um supercomputador em território italiano, estruturado em parceria com a fabricante de chips Nvidia e o grupo G42. No entanto, cerca de 90% de todo o capital levantado veio por meio de instrumentos de dívida, e não pela venda tradicional de participação societária.
Custos pesados e o risco de obsolescência
Essa composição financeira coloca a startup diante de um desafio severo. Hardware de inteligência artificial perde eficiência econômica muito depressa. Novas gerações de processadores gráficos (GPUs) chegam ao mercado em intervalos de dezoito a vinte e quatro meses, tornando frotas anteriores caras de operar. Pagar o principal e os juros de uma dívida multibilionária enquanto a infraestrutura física se desvaloriza exige uma receita recorrente e robusta.
Até agora, a Domyn não tornou públicos balanços auditados que comprovem a saúde financeira de longo prazo dessa estrutura. Também não existem testes comparativos e independentes que coloquem os modelos proprietários da startup frente a frente com as tecnologias de ponta de gigantes como OpenAI, Anthropic e Google. O desempenho e a viabilidade econômica permanecem, portanto, ancorados em declarações da própria companhia.
Soberania digital contra conveniência operacional
Existe um evidente interesse comercial nas declarações de Sharka, já que a Domyn vive da venda de sistemas locais dedicados. Mesmo assim, a provocação encontra eco direto entre diretores de tecnologia e oficiais de conformidade no continente europeu.
A entrada em vigor de marcos legais como o AI Act da União Europeia impõe penalidades duras para vazamentos e uso inadequado de registros. Para executivos que respondem perante órgãos reguladores, a facilidade de conectar uma API em minutos já começa a ser pesada contra o risco de aprisionamento tecnológico e perda definitiva do controle informacional.
Fontes
- The Information: entrevista ao programa TITV em 09/10/2026
- TIME Magazine: perfil no TIME100 AI 2026
- The Next Web: financiamento de US$ 1 bilhão e supercomputador na Itália
- Domyn: anúncio oficial da mudança de marca